Desespero

É-me familiar senão certo o desconforto e o falhanço
Os dois acordo sempre
Mas tento e desespero
Lança-me a vontade e recebe-me o mundo, devorador
Sem saída, perdão ou recompensa
Que farei eu senão chorar
Dar a mão para não ser recebido
Matar-me para nada e morrer
Juro vingança sem poder
Procuro poder sem encontrar
Encontro de novo o meu frágil ser
Só que agora cego, surdo e mudo
Amordaçado pelo seu próprio desejo
Aos encontrões às paredes da sua jaula
Sem saber onde está, quem é, o que é
Mais que morto, esquecido
Máquina
***
Veste o corpo nu
Sopra a vasta cúpula celeste
Preste área à estrela
Irmãs funestas em festa
Cedo dão as mãos em constelação

Presta atenção
Sucede ao caminho homem
Ontem e antes perdido
Esquecido o pedido agrava
Ainda sem asa ou veste
Escurece o seu coração
Não digas que não
***
Presta a mão
Prestes a morrer
É o nevão
Cai a descer
Encontra agreste
A minha prece
E retorna-me ao meu cárcere
Sem saber
Sem poder saber
Mas certo que não vi fantasmas
Mas a mim
Mais morto que vivo
Deserto de afeto mas repleto de vício
E vida que a si própria se consome
O grande dragão que não me deixa dormir
Que me pica e faz coçar
Que me leva à noite e me enlouquece
Cego e vazio mas vivo
Com vida terrível e demoníaca e solar

Que posso eu fazer?
Esperar
***
A vasta vénia
A solidão, servidão
Aquela ténue casa
Embala alma, asa
Embora quase nada
Ensina mas não cala
Vale pela voz vencida
A tua sina cumprida
E o troféu vendido ao céu
Funde os infernos num novo reino
É ele quem chama acende e prende
Ama, cala, quente consente alma
Rebelde e multifacetada
E era nada?
Não nada, claro clarão
Desaba não do céu entrada
Mas do chão criada
A nossa plena casa
Queria mais criada
Funesta mas honesta e brava
***
Ó deusa
Não suporto esta charada
Nem a vida
E onde e quando, como
Desconheço tudo
Ajuda-me
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