Galadriel

O gosto que eu tenho pelo teu branco
Eu vi as entranhas da terra
Entrei fundo em escuridão infinda
E sou ainda e cada vez mais um espetro

Não houve estrela da tarde
Que me devolvesse
Nem nenhum rei de mãos mágicas
E nem o conforto das plantas
Apesar de gostar do seu cheiro
E de estar entre elas

Eu convenci demónios a guiar-me
E quero-te a ti
Mas que te dar?
Não tenho alma sequer, nem riqueza
Que seja digna de um homem
Eu este pequeno pedaço de matéria
Combustível para tantas fogueiras
Parece-me que ardo
Que me desfaço em águas mas não acabo
Continuo

Sou o fogo que me cria e consome
E não tenho mão sobre mim nem sobre nada
Nem mesmo as palavras que me orgulho de juntar
Com beleza e elegância
Não, nem mesmo as palavras
Eu junto com beleza ou elegância

Eu te chamo ó Galadriel
Para que testemunhes deste trabalho
Que feio e informe possa ser
Mas que testemunhes de que
Tento ainda
Agradar-te
***
Antares, a estrela vermelha, o coveiro
Rival de Marte, estrela de azar

Se Galadriel é Vénus, a branca
Então o que sou eu?

Haverá no céu estrela
Que me mostre o que sou
Carne para o deus da carne
Quero gritar e dizer eu!
Mas caio no esquecimento
Não sou respeitado nem amado sou
Mas uma coisa eu tenho
Uma estrela vermelha a brilhar no horizonte
Destino
***
A linguagem dos sonhos
Um pequeno presente e um mistério
Uma mulher com um cesto, o mercado
Comércio, palavras e gritos, algazarra
Caras

Eu sou o deus do sonho
Este o meu reino, além palácio cristal
Este corpo o meu corpo
Mas eu qualquer corpo posso ter
A mente um presente do sonho à peça da vida
Máscaras
***
Lembro-me de uma menina
De pés descalços à beira da água
O seu cabelo caía como o salgueiro
E a lua piava baixinho
Por entre os ramos
Biombo do lago entre paredes
Água, choque e relances entrecortados
De brilho branco e mulher
Que em azul se despeça
E o coaxar cesse
Quem?
***
As flores do crepúsculo fizeram crescer as trevas
Adensam como névoa o brilho das estrelas
Nova lua antiga eu peço
Um capítulo final
Para esta pobre peça
***
A velha apanha ervas e sol
As casas azuis gritam
Estrelas e sangue
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