Inferno

Agora sei
Agora tudo se torna claro
A decisão revelou o destino
Dez chaves mas uma só
E eu o meu nome é fogo
E lamberei as tuas coxas
E saborear vou
Cidades e tudo
Todos os cadáveres e mesmo os vivos
Agora sei mas queria não saber
Mas sei e por agora isso chega
***
Asas sei
E conheço cornos
E vi, voei
Para além

Este círculo, a pedra
Demónios chamei
Anjos vieram de vontade livre
Conforto à minha tristeza
Ela é de certeza sereia sem fim
Eu caminho ao longo do lago de mim
Apaguei-me
Venci-me, vendi-me
Jurei: não há mais
Mas havia mais
Muito mais
E perdi-me sobre o fantasma de mim
e não fui ninguém

Agora uma dúzia de safiras cruéis
Compram passagem pelo deserto
Nova caravana
Novo caminho
Que dragões me esperam?
Que novas gargantas?
Que trinta moedas?
Que cruz?
Quem mais?
Que mais?
Quero mais
***
O crepúsculo, a deusa que dança
A vingança do sol, terrível
Eu sobre o mundo sou
Conheço pedra e ventre fundo escuro
Subterrâneo eu sou e sinto
Em mim desculpa de não ter fim

Cruzas estranhas palavras
Será que consegues dizer o que queres?

Eu chamei uma terra
Uma terra onde isso era possível
Onde os montes são a minha cara
Onde cada criatura é um aspeto
E cada ato é uma parte de mim

Que querias dizer com a deusa escura
Com o magma das suas vestes
Com as sombras e fumos da sua passagem?

Ó não sei
Ganhei coragem para a chamar mas ela não veio
O que preciso mais de ganhar?
***
Um desejo cruel
Um deserto sem fim
Pneus em chamas rolam no horizonte
Eu queria a grande planície, o sol
Eu queria uma fogueira e canções antigas
Que falam à alma
Que mapeiam o território
Mas o que tenho senão dor e fogo
Areia e sangue
Sou mais que qualquer outro
E nunca vou deixar de o ser
***
E chovem presságios
Augúrio augusto de água sem fim
Não há bonança após esta tempestade
Um encontro fortuito
No mar o teu sonho
Cabelos de algas
Mas cedo manchados de fumo e fogo
seta esquerda circulo seta direita