Mortos

Ímpar
Que cruel e que divertido
Se pudesse dizê-lo...
Mas para quê?
Melhor mostrá-lo
Devagar e com força
Mais rápido que o raio de luz
Mais rápido que átomo a chocar com átomo
***
Queria poder pedir perdão
A todas as mulheres que não satisfiz
A sério que me chateia de noite
Só isso nem o querer amor nem nada
Não é luxúria é luxo a frustração
É um luxo poder não ter nada
E querer tudo
É uma forma divina que te faz viver
Para além de toda a tua incapacidade
Real ou percebida
É o maná
É ambrósia e nectar sagrado
Homem, vivo, embriagado pela falta
E tudo
***
O que temes?
Um largo e branco sorriso
Um olhar de suspeita, de dúvida e dor
Falar rápido, falar mais rápido
O teatro do riso e o silêncio que o segue
O escritor, o sábio bem comportado e certo
Que fazer com estes homens?
Dá-lhes uma faca e uma causa
Eles matarão
Quem sabe se a si mesmos
***
Mas palavra de Deus e voz do anjo Gabriel
Quem anunciará a chegada?
Que mel de abelha selvagem
Que leite de cabra terei de beber?
Que escorpião comer?
Que desejo negar?
Que provação superar com força, vontade, fé
Que homem e em que homem me tornar?
Cruel mas gentil?
Justo mas amável?
Certo mas humilde?
Com que asas
Com que cara de luz voar rasante
Sobre a encosta da montanha e para além do deserto
Que sou eu ao certo?
***
Vermelho e final
Entre muralhas mas além de qualquer parede
Eu sou o muro que te espera
Eu sou a trompa dos anjos que anuncia o juízo

Que sou eu?
O ibero de cara negra
Que chama os mortos

E agora que chegámos
A um destino
Que recompensa
Continuar
***
A besta escarlate encontra em ti abrigo
Desconheço o perigo
E sou pela lua nova
A lua dos mortos
Encontro no escuro
O que procuro

O que te move?
A grande noite, a morada das estrelas?
Eu sei o que me move
A minha vontade, vontades e fome
E dança e dentes
E mais e quero mais
Que tens tu para mim?
Se não tens nada sai do meu caminho

As estrelas mudaram
Ou o eixo do mundo
E eu?
***
Adoro cair
Ou então não sei outra coisa
Parece fácil mas é mais natureza que habilidade

Onde a chama que destroi os meus inimigos?
Onde a voz que comanda?
Onde o fantasma com poder sobre os vivos
E com poder sobre os mortos?
Quantas caras e quantos milénios
Até à hora?
Eu quero esperar
Eu quero esperar

E então a estrela morreu
E consumiu os sete planetas
E da nébula cresce uma nova esperança
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