Samael

Tu forjas
Mas eu sou a forja
E o martelo a bater
E a bigorna
Não me chateio, dou-me
Sou-me, some tudo e contigo
E contínuo sofro e continuo o caminho
Caindo quebrado meu brado mais chama
Clama, aclama, aclara
Destino não pára nem palha para esta chama
Para outra cama sem cave nem estrela
Nem reis, nem magos, nem magros
Eu espero, espreito e mantenho respeito
Mas não o tenho
Gastei-o e agora...
Nem esperar posso, nem ser
Devoro-me, consumo-me
Continuo mas não o quero
Quero ser livre
Que poder me cala e escolhe?
Quem, porquê, como
Como eu quero
Sou
***
Se a deusa me soubesse que diria?
Que tipo de homem sou?
Muitas vezes me perguntei
Será vaidade?
Tudo reduzido a pequenos ou grandes desejos, humanos
De ser isto ou aquilo
De ter isto ou aquilo
Mas que sou eu?
O que quero?
Tenho esperança de ser humano?
Melhor, tenho esperança de ser?
De honesto poder ao menos ser
E sim ter fome também e prazer também
E achar coisas belas
E rir e chorar e respirar
E sei lá

Não me sinto vivo
Sinto que sou uma prótese de vida
Uma vida fingida
Que está aqui para ser como se fosse a outra
Mas não é
Nem nunca será

Que eterna magia chamar
Para retornar vida à morte?
***
Um verme
Uma negra pétala cai na face da lua
Escurece a outra metade
A terra estremece
E uma mão ergue-se do chão
Agarra a lua
E esmaga-a
A lua desfaz-se em sangue
Que escorre pelo braço e entra
Debaixo da terra
E agora todo o corpo se ergue
Para a noite sem lua
Para a escuridão
Renovado
Renasce
***
Cresceste queimando asas
E tudo o que era negro
Ficou novo, branco e solar

Agora lento canto seduz mente
À putrefação
Tu sabes quem te espera por baixo
Tiveste vislumbres da tua alma
Mas agora irás de certo conhecer
Porque até agora viamos as imagens distorcidas
Do espelho negro
Mas a partir de agora veremos face a face
As coisas como são
***
Que dor tamanha, que dor sem fim
Ensurdece os sentidos
Agora tudo me é indiferente
Aqui, ali
Esquerda, direita
Cima, baixo
Quero lá saber

Sei os olhos a arder
Sei o corpo a doer e a alma a gritar
E agonia sem poder respirar
E fogo em vez de ar

Que castigo querer amor e não ter
Mas que outro nem sequer querer viver
E viver

Falo agora do medo, da benção da vida
Da cobardia e de tudo o resto
Ou não falo mas, sim, sei
O que deves dizer, o que deves pensar
Mas as ideias perigosas, sobre a morte
Essas são-me mais queridas
E livres e vastas e deixam ar e asas
Será também isto ilusão?

Porque procuras?
Porque não encontro
Nem o prazer me parece digno
Mas sim, uma história
Não contá-la nem ouvi-la mas vivê-la
Ainda quero alguém
Mas mais a mim
Estou morto

Frágil esquece, espera
Escurece
De certo terás torna
De certo terás tu tudo
***
Ninguém te vai salvar
Ninguém te vai

Tu és demasiado novo para morrer
Tudo a seu tempo
Quando chegar vais querer pará-lo
Mas vai ser tarde demais
Podes jogar, brincar
Fazer deste mundo uma diversão
Ou então podes trabalhar e submeter-te
E fazê-lo uma prisão
Não interessa
As tuas escolhas não te fazem
Nem fazem ninguém
No teu coração não ris, choras
Mas tudo o resto é riso
Eu não preciso de saber o destino
Eu estou aqui sobre o mundo inteiro
Tenho mais tesouro que reis
Tenho mais para que viver
Que todos os homens
Sou um jovem deus
À espera de uma explosão que me liberte
Vou voar para além do mundo
E todos saberão
Quem eu realmente sou
Terror e glória eterna
Sobre os céus e debaixo da terra
Duques e reis vão curvar-se
Quando eu passar
Não sou somente carne
Mas sim a alma que ela esconde
Não sofro eu sou
Eu realmente sou e nada pode impedir-me

Se queres viver
Vive!
***
Não tens cem olhos como Argos
Nem guardas a princesa
Mas podes guardar outro tesouro

Eu sou o dragão eterno
Posso acordar as chamas e governar o mundo
Ou destrui-lo
Não temo
Não temo
Escolho uma nova roupa e faço o que quiser
Ninguém me pode parar ou prender
Agora sou mais que Deus
Sou
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