Crónicas da Demonland

Fazes como foste instruído. Ao avistares as costas vês duas figuras num porto de pedra escura. Ouves a conversa entre eles:

Olha. Que vês na penumbra? É um casco estranho que se carrega sobre as ondas. Eu vejo sereia cegas a guiá-lo, com canções de outro mundo. Eu vejo um homem à proa e na sua testa brilha uma estrela negra. Eu quero-o, aquele. Quero participar da sua história, quero pegar-lhe na mão, ler-lhe o destino. Ser grande, ser grande, ser o demolidor dos mares, das terras deste reino, fazê-las cair, tremer, abrir abismo que tudo devore e devolve nada nunca mais.

O outro demónio responde:

Espero que morras. Servir um homem é uma desonra, serás favorecido se te poupares à servidão. No entanto terás de suportá-la, assim como suportaste o jugo do pai, suportarás o jugo do filho. A este não podemos negá-lo, ele não veio para ficar nem para deixar qualquer denúncia da sua passagem. Ele veio para invocar cada um, chamá-los pelo nome, extrair o seu poder. Como um louco é levado a fazer coisas estranhas cujo propósito ninguém entende. Pois eu não preciso de entender, nem quero, eu vejo-o claramente. Vejo-o agora nas praias e sei que os seus trajes rasgados não são o que verdadeiramente o cobre. A mente procura não dizer a verdade, escondê-la atrás de outras palavras e histórias, é como um truque, uma aproximação não demasiado direta. Cansa-me este jogo assim como o cansa a ele, mas mesmo assim ele não vai mostrar-se. Não vai, eu sei, é ainda demasiado cedo. Ele está a guardar-se para algo e penso que nem ele sabe o quê.

Por fim chegas e desembarcas, falas assim aos habitantes das costas:

Eu cheguei, por fim, aqui estou! Levem-me ao vosso líder. Quero tecer colheitas de cabeças e montá-las sobre as muralhas. Quero entediar os bravos e comer os fortes e matá-los a todos. Quero entrar pela porta do palácio e cheirar onde ficam as cozinhas e fazer venenos com as senhoras de lá. Quero as crianças envenenadas, mortas junto aos pais. Quero tratar das feridas aos soldados e depois decepar-lhes as mãos e vê-los lentamente definhar e morrer de velhos. Quero isto e a coroa, vi as sereias sem olhos e a besta do fundo, agora quero a madre pérola, quero a pérola sobre as labaredas de ouro e sentar-me no trono de cristal e cetro de adamante.

Os dois demónios ouvem e o mais alto responde:

Eu guio-te ó homem, pelos caminhos retos, evitaremos os espinhos, as falésias. Guio-te pela estrada real, que dança pelos gritos agoniados dos acorrentados, que faz ponte sobre os suicidas, que curva em torno dos mártires, até o inferno tem mártires! Eu guio-te na esperança de te ver acordar coroado, nu sobre as safiras e rei dos oceanos e de todos os exércitos. Até os pássaros negros cantarão a tua glória cinzenta, sim já os oiço, arautos da tua chegada e cedo tecerão louvores à tua conquista. Sim, sim eu guio-te.