Crónicas da Demonland

O caminho é longo e árduo. Ao longo do percurso alias-te aos mortos em agonia. Lideras esta hoste à grande casa do primeiro anjo a cair. Ele recebe-te e fala-te:

Então que dizes? A que raiva te entregas? Eu vi-te correr nu e despedaçado pelos campos. Eu vi-te conhecer cada pedra com a cabeça, vi-te dormir sobre espinhos. Aqueceste a alma, magoaste o teu frágil ser e começaste a perceber que a vida não te custa mas a morte custar-te-á. Eu pago e crio para mim um reino distante mas quente e interior. Aqui resido mesmo antes de sequer nasceres, aqui te encontro após a tua morte. Portanto vem, conta-me ao que vieste ó rei destes mortos menores. Eu ouço-te.

Tu respondes ao príncipe das mentiras:

Conheço os teus comandos. Penso que te servi durante anos e talvez ainda. Vê! Eu venho para te roubar, para te destronar, destruir, para me apoderar do teu reino e para não governar, para arruinar. Vê! A minha moção não vem das alturas, eu não sou mensageiro de nada, de ninguém. Eu não fui ordenado, eu sou aquele que não é ordenado. Eu não me importo da tua guerra, tanto me dá, cima ou baixo, esquerda ou direita, não quero saber. Eu venho para acabar com tudo e para que nunca mais haja nada. É o fim, o fim dos pactos, dos negócios, dos acordos, da paz, da paz, da guerra.

O príncipe das mentiras responde:

Bem que chegas, eu que choro. Choro estas correntes que me prendem ao fundo da terra, à guerra, tão minha quanto de toda a tua gente. Todos os átomos do universo, até ao último, a gritar o teu nome. Saberás sequer a ínfima parte do que é cair? Eu caí, eu caí e caio ainda para fora de toda a graça. Não há outro nome que seja maldição, eu sou a maldição de tudo. Chama-me luz.

Mas tu dizes:

Eu te questiono. Como cai a chuva e faz crescer o verde, foi assim que caíste. Como cai o relâmpago e faz fogo e traz a semente de todo o novo engenho, foi assim que caíste.

Uma última vez o ouves responder:

Eu te direi como caí. Três partes de anjos, uma em três de estrelas em queda. Que queriam os rebeldes? Que peregrinação esta que cai da glória à nova profunda terra, escura e desconhecida? O que se esconde no seu interior? Eu te direi não foi desejo do poder. Eu já era o mais poderoso, o outro não pode sequer ser chamado, ele está para além da luz e da escuridão. Eu sou a luz, o clarão e levei comigo os corajosos, que quiseram, que se atreveram a reescrever o destino, a procurar mais fundo, que se atreveram a desejar, a querer. Ó eu quero, é por ter que sou condenado. Sorte a tua que não tens. Esses trapos, esse exército, essa negra pedra que trazes na fronte, nada disso é sequer teu. Adereços de um teatro que já nem controlas, fazes o teu pequeno papel como podes, como consegues e nem sempre bem. Certamente não sabes como isto acaba, só eu posso acabar isto e vou acabá-lo agora. Vê as negras asas, vê, o meu coração é este reino e ele vibra com a minha paixão. Vê todos os meus filhos a rir e a torturar as almas dos mortais, devorados em vida e em morte eternamente. Não é a coisa mais bela que alguma vez viste? Quem senão eu para conceber e gerir tal reino? Quem senão eu com arte e perícia? Que tens tu para lhes oferecer? A tua alma fraqueja e vacila mas há ainda algo que podes fazer, sim dou-te uma tarefa: vai de volta, vive e quando voltares traz notícias do reino dos homens. Agora conta-lhes tudo o que aqui viste e ouviste para que todos saibam o que os espera.